LAURA MENDONÇA
Nome: Laura Mendonça
Ano: 2020
Local: São Paulo
Status: Corpo não localizado
RELATO INVESTIGATIVO
Laura Mendonça não aparece nos registros oficiais como vítima da pandemia. Não consta entre os óbitos por COVID-19, não consta como internada, não consta como desaparecida formalmente. Ainda assim, seu nome surge repetidamente em anotações paralelas, capturas de tela arquivadas, registros informais e fragmentos de relatos que escaparam do colapso administrativo daquele ano. Ela vivia sozinha em São Paulo, durante o período mais crítico do isolamento. As referências ao tempo em seus escritos são instáveis. Dias deixam de existir como unidades reconhecíveis. Tudo é convertido em números: casos, óbitos, leitos, taxas, curvas. O vocabulário dela já não descreve pessoas — descreve estatísticas. O encontro relatado por Laura ocorre dentro do próprio apartamento. Não há arrombamento. Não há violência. Não há indício de alucinação. Ela descreve o momento com clareza funcional, típica de alguém exausta, mas lúcida. O visitante não se apresenta como salvador, nem como ameaça. Ele se apresenta como parte de um sistema que opera fora da contagem. A frase central do depoimento é recorrente em outros casos contemporâneos: “Pandemias não acabam quando as pessoas resistem, mas quando alguém oferece algo que o sistema não consegue contabilizar.” Laura questiona diretamente se aquilo salvaria vidas. A resposta é precisa, fria, tecnicamente correta dentro da lógica apresentada: não salvaria — reduziria a contagem. A linguagem é a mesma usada por gestores, gráficos e coletivas de imprensa. O sacrifício não é descrito como redenção, mas como ajuste. Ela escreve repetidamente sobre o cansaço. Não apenas o cansaço físico, mas o cansaço moral de assistir pessoas morrerem sozinhas, sem rituais, sem despedidas, transformadas em notificações atrasadas. Laura não romantiza a dor. Ela denuncia a normalização dela. O visitante promete algo específico e limitado: alguém não entraria em um hospital no dia seguinte. Não o fim da pandemia. Não a cura. Apenas a interrupção de uma cadeia invisível — uma variável removida antes de gerar mais números. Laura compreende que sua escolha não mudaria o curso da História. E é exatamente isso que torna o caso consistente com o padrão. Ela não é escolhida por ser especial. Ela é escolhida por ser suficientemente empática para aceitar desaparecer sem reconhecimento. Não há corpo. Não há despedida. O apartamento foi encontrado dias depois, limpo, organizado, sem sinais de luta. O celular de Laura permaneceu ligado por mais 48 horas, registrando chamadas não atendidas de um único número: “Desconhecido”. Nenhuma investigação avançou. Em 2020, não havia recursos para procurar quem não deixava cadáver. Laura não acreditava que “tudo ficaria bem”. Ela entendia que algo sempre fica. E decidiu que esse algo não seria mais uma pessoa ocupando um leito, mais um nome numa planilha, mais uma família esperando notícia por telefone. Ela não morreu para salvar o mundo. Ela desapareceu para aliviar um sistema que já havia aceitado perder pessoas. E, mais uma vez, o padrão se confirma: alguém observou, calculou, esperou — e Laura deu o passo sozinha. Este caso permanece ativo.