ALEKSANDR PETROV

Castela — 1917
Classificação: Vítima Confirmada

Retrato atribuído a Isabel de Torquemada

Nome: Aleksandr Petrov

Ano: 1917

Local: Petrogado

Status: Corpo não localizado

RELATO INVESTIGATIVO

Aleksandr Petrov surge nos arquivos como um nome comum demais para sobreviver à História. Operário, sem filiação partidária relevante, sem registros de liderança ou denúncias formais. Ainda assim, seu desaparecimento foi anotado por duas fontes distintas no inverno de 1917, em meio ao colapso do regime czarista e à ascensão da revolução. O texto atribuído a Aleksandr não apresenta exaltação ideológica. Pelo contrário: há cansaço, lucidez e uma percepção aguda da violência moral que acompanhava o discurso revolucionário. Ele não escreve como alguém que acredita plenamente no futuro prometido, mas como alguém que percebe o custo humano que começa a ser normalizado. O encontro descrito por ele segue o mesmo padrão observado em outros casos. Um homem não identificado. Nenhuma ameaça direta. Nenhuma arma. Apenas palavras — cuidadosamente escolhidas — que transformam o sacrifício individual em uma engrenagem necessária para preservar uma “ideia”. Aleksandr não é convencido a morrer pela pátria, nem pelo partido, nem pelo povo. Ele é convencido a desaparecer para reduzir o ruído. Para interromper, ainda que minimamente, a cadeia de denúncias, prisões arbitrárias e execuções sumárias que já se tornavam rotina em Petrogrado. Testemunhos coletados décadas depois mencionam que Aleksandr foi visto entrando em uma carruagem fechada, sem insígnias oficiais, próximo à região do Canal Griboyedov. O condutor vestia roupas escuras, inadequadas para o frio intenso da estação. Um símbolo foi descrito de forma vaga na lateral da carruagem — uma marca simples, geométrica, impossível de associar a qualquer facção revolucionária conhecida. Aleksandr nunca foi listado entre os mortos da revolução. Não consta como preso político. Não aparece nos registros de emigração. Seu nome simplesmente deixa de existir. O padrão se repete: indivíduos comuns, empáticos, cansados da violência justificada pelo “bem maior”. Pessoas que começam a questionar a legitimidade do sacrifício coletivo. Pessoas que poderiam, com o tempo, minar a engrenagem apenas por recusarem o discurso dominante. Aleksandr acreditou que sua ausência salvaria alguém. Talvez tenha salvado. Mas o mecanismo continuou funcionando. E, mais uma vez, algo observou em silêncio enquanto ele deu o passo sozinho.

Fonte: depoimentos antigos e registros fragmentários analisados por Adelaide Bärenfänger.